quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Escritos dentro de um livro

Há alguns dias atrás encontrei, num livro que andava cá por casa há muito tempo um papel com escritos delirantes do tempo da minha primeira crise psicótica que faz por esta altura 28 anos.

É verdade, há 28 anos atrás, por esta altura do ano, encontrava-me internada no Miguel Bombarda, antigo hospital de Rilhafoles. O Hospital dos Alienados. E era como me encontrava completamente alienada, mas simultaneamente com muito discernimento. Assim, se na primeira parte os meus escritos deixam um pedido parvo que não fazia sentido na fase onde eu me encontrava, na segunda parte escrevo com muita clareza. Ora fica aqui o registo:

“Pôr um sorriso no rosto, a esperança no olhar e muita força na alma. E então a vida é energia e cada momento é tão importante porque é feito de cada minuto. E em cada minuto é feito algo de muito importante. É assim que crescemos e que prolongamos a nossa existência. Há que saber descansar e trabalhar e ter uma atividade equilibrada. Para isso é preciso saber ser equilibrado…”

Para contextualizar, eu entrei em crise psicótica no final de Outubro de 1996 mas só fui internada no final de Janeiro de 1997. Durante esse hiato de tempo andei a penar. Saltei de psiquiatra em psiquiatra. Penso que durante esse período não cheguei a dormir nada pois passava as noites em claro. Escrevia e fazia renda durante a noite, mas não conseguia dormir. Simultaneamente tinha de cuidar da minha filha recém-nascida. De facto fiquei em crise maníaca após o nascimento da minha filha. Foi uma fase muito complicada. E o pior de tudo é que não foi nessa altura que me diagnosticaram a doença bipolar. Esse diagnóstico só ocorreu em 2010. Também nesta altura do ano, há 15 anos atrás, estava internada, mas desta vez no Júlio de Matos. Entre o tratamento de 1997 e 2010 continuei a viver de um modo desequilibrado e isso refletiu-se no relacionamento com a minha filha. Tentei ser a melhor mãe possível dadas as circunstâncias, mas fiquei muito aquém daquilo que a minha filha precisava. Ela levou com todos os meus delírios. Em 2004 nasceu o meu filho. A relação com ele foi mais fácil. Ele não se lembra da minha crise maníaca de 2010. Consegui ser uma melhor mãe para ele, consegui que ele não levasse tanto com os meus delírios. No entanto, a minha relação com filha ainda hoje é tensa. É assim, tem de se pôr um sorriso no rosto e viver a vida. Nem tudo corre como planeamos. É da vida…

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