Acontece, porém, nos meus primeiros anos de casada, e durante um leve estado psicótico, vislumbrei a imagem saudável do meu sogro com os seus olhos claros a sorrirem para mim. Naquela presença desfocada mas intensa o meu sogro implorava-me para cuidar e salvar a sua família.
Nessa altura, a família nuclear do meu sogro era a sua esposa, os seus três filhos e eu.
Era uma família difícil não só pela doença do meu sogro, como pelo fato de ele ter estado emigrado a maior parte do tempo em que esteve casado. Por isso, a minha sogra teve que criar os filhos sozinha, com uma postura muito dura e com pouco afeto.
Não acreditando muito em cenas de visões, acho que se deveu ao fato de eu ser uma pessoa de afetos o motivo que levou o meu sogro a fazer-me este pedido. De inicio não liguei muito a esta situação, primeiro porque ter visões já era motivo para desconfiar que eu já tinha alguma doença mental, depois porque a minha sogra era difícil para mim (aliás ela é difícil para todas as pessoas) e por isso ficava bastante afetada, tentava melhorar o ambiente mas nada resultava e isso doía.
Mas depois comecei a perceber o coração duro da minha sogra, a não ligar a certas coisas, a dar-lhe carinho que foi coisa que ela nunca teve nem na sua infância, nem no pouco tempo em que esteve casada. E as coisas começaram a rolar.
Entretanto nasceram os meus filhos e a família nuclear do meu sogro transformou-se simultaneamente na minha.
Aos poucos e poucos a outrora família complicada tornou-se numa família estruturada e isto apesar das minhas descompensações e surtos psicóticos. Depois em 2018 o meu cunhado foi mortalmente atropelado e nessa altura a família uniu-se bastante.
Temos sido mais coesos e a forma assertiva como lido com esta família, que de início era disfuncional, tem me ajudado a melhorar o meu lado bipolar e isso têm me feito bastante bem.
Sinto que tenho que tenho o verdadeiro toque de Midas porque, não estando a gabar-me, a verdade é que as coisas correm bastante bem.
Estas duas semanas tenho andando descompensada, e a par do meu bom ambiente de trabalho, tem sido o meu marido, a minha sogra e o meu filho que me têm ajudado a dar a volta por cima.
Se tivesse dado atenção às palavras da minha sogra e tanta coisa de mal não me tinha acontecido.
No fim, não sei quem salvou quem. Se fui eu que salvei a família do meu sogro ou se foi ele que me salvou a mim por intermédio da sua/nossa família.
Pronto, é isto que tenho por hoje.
