quinta-feira, 30 de setembro de 2021
As minhas fronteiras
Este post de José Luís Peixoto despertou em mim a necessidade de falar sobre a minha fronteira, ou melhor sobre as fronteiras que a doença bipolar faz erguer à minha volta.
Em meu redor existem três fronteiras. Estas não ocorrem em simultâneo, mas as duas primeiras surgem com a mudança cíclica das estações.
A primeira surge quando os dias se tornam ou mais curtos ou mais longos. Quando caem as primeiras folhas ou nos primeiros pores-do-sol mais prolongados. Todos os anos é certo e sabido que na mudança do Inverno para a Primavera ou do Verão para o Outono esta fronteira surge à minha volta tão intransponível, tão sólida e tão fixa que não me permite transpô-la e encontrar-me com os braços de Morfeu. Passo noites em claro, noite brancas, dias cinzentos acompanhados de excruciantes dores de cabeça. Nestes dias, e apesar do meu estado pesaroso, tento fazer, sem sucesso tudo ou mais alguma coisa. Como me conheço e tenho autorização da minha psiquiatra deixo de tomara a paroxetina, passo olanzapina de 2,5 mg para 20 mg e passo a tomar, em sos, morfex 30 mg ou 15 mg (conforme as noites).
Este acerto de medicação produz efeito e, passado alguns dias a fronteira erguida pela mania dissipa-se, mas eis que em meu redor se constrói uma nova fronteira, um novo poço. Nestas alturas fico triste, qualquer pequena coisa me magoa, só me apetece chorar, tenho receio em conduzir e perco a alegria. Estes são os sinais que avisam que tenho de mudar de estratégia. A paroxetina volta a ser introduzida aos bocadinhos e a dosagem da olanzapina vai diminuindo ao ritmo que o me corpo permite.
Este ajuste começa a fazer efeito e eis que chego ao terceiro estado, à terceira fronteira, à fronteira de uma pessoa normal.
Porém no meu caso esta fronteira não existe. Com a doença bipolar aprendi que neste estado não há fronteiras, aprendi a desfrutar e dar mais valor à vida, a dissipar fronteiras, a gritar para mim mesma que eu sou senhora do mundo e tudo o que existe no mundo, basta eu querer, me pertence.
No meu mundo encanto-me com a arte, aprecio música, desfruto do prazer em ir ao teatro ou ao cinema, deleito-me com uma história escondida nas páginas de um livro, degusto uma bela refeição ou uma qualquer gordice. Tenho prazer em mergulhar no mar salgado, ouvir o som das cigarras na hora da calma, o desassossego dos pássaros em voltar aos ninhos pelo fim da tarde.
Em suma a doença bipolar para mim foi uma sorte pois tornei-me numa apreciadora das coisas boas que a vida oferece e permitiu-me esbater quais queres muros que uma vida normal te impõe. Isto porque aquela força, aquela resiliência que existe dentro de mim para superar situações de crise, transformo-a e canalizo-a para sorver a vida de uma forma calma, tranquila e serena que só uma pessoa calejada pela doença pode ter.
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Que texto mais lindo!
ResponderEliminarObrigada pela força de sempre!
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