segunda-feira, 11 de abril de 2016

E se fosse eu?

Muito se tem falado sobre a iniciativa promovida pela Plataforma de Apoio aos Refugiados em colaboração com a Direcção-Geral da Educação, o Alto Comissariado para as Migrações e o Conselho Nacional de Juventude, e que tem como objectivo a sensibilização para o acolhimento de refugiados através de se colocarem na pele de um refugiado e arrumem a sua mochila como se estivessem a fugir da guerra, a sair da sua casa e deixar o seu país. Esta acção colocou miúdos por todos o país a pensar nessa situação e uma artista plástica do nosso país sob a mira das mais variadas críticas mas isso é já outra praia.
E eu resolvi este exercício e passo aqui a expor.
Se fosse refugiada e tivesse que levar toda a minha existência numa mochila eu levaria uma muda de roupa, água, fotos dos meus dias felizes, telemóvel, lítio, ácido valpróico, olanzapina, paroxetina e mais dois tipos de SOS. Mas se eu fosse refugiada de um país em guerra não haveria nas farmácias estes medicamentos para trazer nem para os tomar com uma periodicidade diária. E se eu estivesse num país em guerra, sob stress traumático e sem medicamentos eu estaria doente, maníaca, com visões, ouvindo coisas, cheirando outras. Se eu estivesse doente, num país em guerra e sem medicamentos estaria neste momento num hospício a definhar lentamente pois a mania em mim leva-me a uma brutal perda de peso que pode conduzir à morte. Mas se eu estivesse doente num país como a Síria eu não estaria internada pois as instituições não estão a funcionar desde 2011, andaria a vaguear entre Damasco e  Baradun e muito dificilmente estaria viva pois se não tivesse morrido de exaustão o mais certo era ter cometido suicídio.
Assim, no meu caso, se estivesse num país em guerra, a mochila não me serviria de coisa nenhuma.
E quem diz eu, diz também os cardíacos, os diabéticos, os hemofílicos e todos os portadores de doenças crónicas. Ao longo destes cinco anos, quantos e quantas pessoas terão morrido na Síria não por bombardeamentos mas por falta de assistência médica e privação de medicamentos essenciais? Não sei, mas acho que valia a pena pensar nisto.

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